Rio, São Paulo e Minas no espelho do Brasil
15/01/2026 | 08h58
Imagem gerada por Ia a partir do envio do texto já pronto.
Imagem gerada por Ia a partir do envio do texto já pronto. / Gemini

Rio, São Paulo e Minas no espelho do Brasil

Edmundo Siqueira
William Passos

O pequeno Justus nasceu na cidade de Darmstadt, no sul da Alemanha, nos primeiros anos do século XIX. Seu pai mantinha uma espécie de farmácia, onde comercializava produtos químicos usados em medicamentos e pintura. Havia um pequeno laboratório anexo ao estabelecimento, onde Justus von Liebig cresceu brincando de ser químico — e se tornaria um dos mais importantes cientistas da história moderna.

Entre seus feitos estão o fertilizante artificial e o espelho — ou, mais precisamente, a aplicação de uma fina camada de prata líquida sobre o vidro para criar a imagem refletida.

A imagem que o espelho cria é virtual e invertida, produzida a partir de um elemento real. No Brasil, o espelho, que já foi usado como moeda de troca na colonização, tem refletido uma sociedade polarizada, violenta e desconfiada. Mas qual é, afinal, a imagem refletida do Brasil de hoje? Como o brasileiro se vê — e, mais importante, quais são os elementos reais que produzem essa imagem no espelho?

Essas são algumas das perguntas a que se propõe a responder o mais novo livro do cientista político Felipe Nunes, intitulado “Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros”, lançado pela Globo Livros, em novembro de 2025. Em entrevista concedida ao Folha1 nos primeiros dias de 2026, Nunes — diretor e fundador da conceituada Quaest Pesquisa — falou sobre o conservadorismo no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais, as eleições deste ano e os pontos em que o Brasil mais se reconhece — e mais se desconhece.

Para ampliar essa leitura, este texto dialoga também com o geógrafo William Passos, especialista em estatística e pesquisador formado pelo IBGE. Em uma escrita a quatro mãos — uma, analítica; outra, territorial — tentamos esmiuçar o que os números dizem sobre um ano decisivo para o Brasil e, em especial, sobre como o eleitorado do Rio de Janeiro se posiciona diante do conservadorismo, da insegurança e da política.

O conservadorismo no Rio, em São Paulo e em Minas Gerais

Os dados da pesquisa que gerou o livro “Brasil no espelho” mostram que o conservadorismo brasileiro não é um bloco homogêneo. Ele se organiza como um conjunto de valores relativamente estáveis — ordem, autoridade, centralidade da família, fé e moralidade pública —, mas assume formas distintas conforme a experiência concreta com o Estado, a economia e a violência.

São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais compartilham o rótulo, mas vivem conservadorismos diferentes. Em São Paulo, a ordem está associada à previsibilidade e ao desempenho institucional. No Rio de Janeiro, à proteção e à sobrevivência. E em Minas, à conciliação e à estabilidade. Essas diferenças ajudam a explicar não apenas escolhas eleitorais, mas também modelos distintos de capitalismo, desenvolvimento e relação com o poder público.

Nesse sentido, Nunes insiste que em São Paulo prevalece um conservadorismo de ordem, no qual há uma forte demanda por desempenho. Trata-se, assim, de um conservadorismo mais “institucional”, com forte necessidade de eficiência, previsibilidade, ambiente regulatório com regras claras, meritocracia e punição para quem “atrapalha”.

Por esses elementos, o conservadorismo paulista tende a enxergar o Estado com ambivalência, na medida em que, por um lado, aceita o Estado quando este entrega serviços públicos essenciais, como saúde, educação, infraestrutura e segurança, mas, por outro lado, o rejeita quando o Estado ganha a forma de burocracia, corporativismo ou “privilégio”. Ainda a este respeito, Nunes lembra que, no conservadorismo dominante em São Paulo, a moralidade aparece, porém, frequentemente colada ao discurso de responsabilidade e disciplina.

Por outro lado, no estado do Rio de Janeiro, o que prevalece é um conservadorismo de segurança, no qual há uma forte demanda por proteção, o que é explicado, na visão de Nunes, pela insegurança cotidiana, com atributos — violência armada, crime organizado, territórios capturados, entre outros — que empurram o conservadorismo para o eixo da proteção. Esse cenário é explicado pela contingência da garantia do direito a não morrer.

Ainda no espelho do Rio de Janeiro, Nunes constata que o Estado é visto como ausente, frágil ou capturado, o que, por sua vez, explicaria o crescimento da tolerância social com “soluções duras” e com lideranças que prometem controle. Em paralelo, revelando o alto e forte contraste interno do conservadorismo fluminense, especialmente na cidade do Rio de Janeiro, o cientista político identifica bolsões cosmopolitas e libertários relevantes.

Por sua vez, no espelho de Minas Gerais, que no seu íntimo reflete o Brasil, o que se impõe, na avaliação de Nunes, é o conservadorismo de conciliação/pragmatismo, que, mais “temperado”, valoriza família, tradição e ordem, mas costuma ser menos performático e mais pragmático. Outro achado importante da pesquisa que gerou o livro “Brasil no espelho” é o forte peso, no conservadorismo mineiro, do que Nunes chama de redes locais, municipalismo e “política do possível”. Espinha dorsal deste singular conservadorismo, a política do possível tende a punir radicalismos percebidos como ameaça à estabilidade, o que explica o fato do conservadorismo mineiro frequentemente se traduzir em moderação e “cautela” — o eleitor mineiro demanda segurança e entregas, mas desde que não haja rupturas.
Reprodução


Como o conservadorismo se reflete na dinâmica do capitalismo e do desenvolvimento econômico

Perguntado sobre como o conservadorismo se reflete na dinâmica do capitalismo e do desenvolvimento econômico, Nunes revela que os valores dominantes, por si só, não determinam o desenvolvimento, mas influenciam o tipo de coalizão política e o “clima institucional” que cada estado brasileiro constrói — e isso, por sua vez, se reflete na dinâmica do investimento, da produtividade, da informalidade e da capacidade estatal.

Nesse cenário, Nunes enxerga o conservadorismo de São Paulo como pró-previsibilidade, o que, por sua vez, favorece um capitalismo mais orientado à produtividade, competição, governança e à formação de cadeias complexas — indústria, serviços avançados e finanças. Este modelo de conservadorismo, por sua vez, pressiona por políticas públicas mais “gerenciais” — metas, controle, entrega e regulação mais estável —, ao mesmo tempo que tende a premiar governos com boa reputação de administração e infraestrutura.

Por outro lado, no caso do estado do Rio de Janeiro, o eixo proteção/segurança encarece o capitalismo. Isso acontece em função do aumento do custo de transação, além dos custos do risco, da informalidade e das “economias de coerção”. Assim, em função desta estrutura, a economia acaba por ficar mais sensível aos ciclos da renda extrativa/rentista — óleo, royalties e grandes contratos — e, ao mesmo tempo, menos sustentada por um ambiente amplo de pequenos e médios negócios protegidos por instituições fortes. Portanto, a promessa de “retomada” do controle territorial acaba por virar uma agenda econômica indireta, na medida em que, sem ordem territorial, a economia não floresce.

Finalmente, no caso de Minas Gerais, o pragmatismo e a busca por estabilidade tendem a produzir um capitalismo mais incremental, na visão de Nunes, isto é, diversificado — mineração, agro, indústria e serviços — e com forte peso da interiorização e da formação de cadeias regionais. Isso acontece porque a preferência por conciliação facilita a formação de arranjos de investimento e de infraestrutura quando há coordenação. Por outro lado, o capitalismo incremental mineiro acaba produzindo um efeito colateral importante, que é o gradualismo excessivo quando há a necessidade da realização de reformas, o que é explicado pelo predomínio da lógica menos “ruptura” e mais “ajuste”, baliza fundamental para a garantia da previsibilidade política e dos pactos locais firmados.

O espelho real e o distorcido

No fim, o que “Brasil no espelho” revela não é apenas a diversidade dos conservadorismos regionais, mas a dificuldade histórica do país em reconhecer a própria imagem sem distorcê-la. São Paulo se vê como engrenagem e o Rio, como um estado onde não se aplicam as mesmas leis dos “outros”, e Minas, como fiadora da estabilidade possível. Cada qual se reconhece — e se protege — a partir de sua própria experiência com o Estado, a economia e o medo.

Como no espelho de Liebig, a imagem que se forma não é falsa, mas invertida: parte de um elemento real, porém reorganizada por camadas de expectativa, insegurança e memória coletiva. O desafio político de 2026, mais do que escolher entre direita e esquerda, será compreender que o Brasil não cabe em um único reflexo.

Talvez o maior risco esteja justamente em insistir em buscar respostas uniformes para sociedades que se organizam a partir de medos distintos. Enquanto isso, o espelho segue posto. Não para nos dizer quem deveríamos ser — mas para revelar, com desconforto, quem de fato somos quando ninguém está olhando.
 
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Entre a bala e o altar: o oportunismo sem pecado de Cláudio Castro e a hipocrisia da esquerda Zona Sul
01/11/2025 | 10h34
Agência Brasil
“Quem pode, por direito, reivindicar coragem para si mesmo é o servidor da Segurança Pública (...) não há Estado forte sem policiais fortes”.

A frase poderia facilmente ter sido retirada das declarações dadas pelo governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro, após a “Operação Contenção” contra o Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte da cidade do Rio, deflagrada na última terça (28) — mas foram ditas no discurso de posse de Castro, em janeiro de 2023.

O tema “segurança pública” não é exatamente uma novidade em uma cidade com altos índices de violência e com milhões de pessoas vivendo em territórios dominados por facções criminosas. Já era central nas últimas eleições e continuará sendo para 2026. A questão é: por que o governador do Rio conseguiu nacionalizar o tema agora? Por que governadores de outros estados rapidamente vieram apoiar Castro e posar ao seu lado na foto?

O que parece começar a oferecer elementos para responder essas perguntas é a flagrante incapacidade do campo progressista em tratar o tema, seja na oferta de soluções ou no diagnóstico do problema. O Rio se tornou o espelho rachado de um país que terceiriza a responsabilidade e nacionaliza o medo. Claudio Castro não inventou a necropolítica, apenas entendeu seu valor de mercado, entendeu que o momento de baixa da popularidade de direita era o ideal para lançar esse ativo adormecido.

Do outro lado, o presidente Lula não soube aproveitar o momento de alta, e uma declaração infeliz, por coincidência ou não, alguns dias antes da operação no Rio, parece ter sido um tiro fatal no bom momento de seu governo, ou pelo menos na curva crescente de sua popularidade — Lula parece ter gastado sua conhecida fortuna (sorte, na concepção maquiavélica) na questão com o presidente americano Trump, pois não haveria momento pior para uma escorregada como essa.

Soma-se à dificuldade da esquerda no tema ao esvaziamento dos discursos de direita, e a segurança pública se transforma em ouro político. Com a extrema-direita ainda desestruturada pela possível prisão em regime fechado de seu líder maior, o ex-presidente Bolsonaro, havia esperança de que a retórica agressiva de Trump e a taxação sobre o Brasil provocassem danos maiores ao governo Lula, o que não apenas não aconteceu como o efeito foi contrário. Ali, o tiro saiu pela culatra.

Castro, o oportunista

A ida de Cláudio Castro ao Palácio Guanabara se deu pelo impeachment de Wilson Witzel, em 2021. Saindo de uma candidatura apagada na Câmara de Vereadores do Rio, Castro, advogado e cantor católico, foi eleito como vice de Witzel em uma vitória surpreendente, fortalecida por um discurso justamente calçado em segurança pública.

“O correto é matar o bandido que está de fuzil. A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e... fogo! Para não ter erro”, disse Witzel em 2018.

A vitória de Witzel, ex-juiz federal nascido em Jundiaí (SP), aconteceu na esteira de um bolsonarismo então nascente, e demonstrou a insatisfação do eleitor fluminense com o poder constituído até então. O discurso contra corrupção e o tráfico de drogas e a pose construída de juiz honesto e duro com o crime, caiu como uma luva numa eleição em que o voto de revolta era a tônica. Em um Estado onde à época já contava com uma ficha de cinco governadores presos, não era de se estranhar.
O presidente Jair Bolsonaro (PL) com o governador Cláudio Castro (PL) durante o ato de 7 de setembro de 2022, em Copacabana.
O presidente Jair Bolsonaro (PL) com o governador Cláudio Castro (PL) durante o ato de 7 de setembro de 2022, em Copacabana. / Imagem: Saulo Angelo/ Futura Press/ Folhapress


O afastamento de Witzel por suspeitas de corrupção frustrou a aposta do fluminense em um governador diferente dos demais. Cláudio Castro assumiu o governo e percebeu que havia uma deficiência também em agradar o interior do estado, historicamente esquecido do orçamento e de ações estaduais.

Em 2021, Castro consegue emplacar o leilão que transferiu blocos da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) à iniciativa privada: o certame arrecadou cerca de R$ 22,6 bilhões, parcela expressiva dos quais — aproximadamente R$ 14,48 bilhões — ficou com o governo do Estado e parte considerável foi destinada aos municípios que aderiram ao plano de concessão.

Sem poder se candidatar ao estado novamente, Castro era visto como um potencial pré-candidato ao Senado, que em 2026 terá duas cadeiras vindas do Rio. Antes da operação no Alemão e na Penha, o governador não gozava de boa popularidade, e havia dúvidas se conseguiria se eleger. Em pesquisa DataFolha deste sábado (1º), a gestão do governador chegou ao seu maior índice de aprovação desde 2022, com 40% dos moradores do Rio de Janeiro e da região metropolitana da capital achando o trabalho ótimo ou bom.

Oportunismo político sem pecado, olhado por lentes exclusivas desse campo.
A esquerda, segue distanciada do povo

Inegavelmente, a direita domina o discurso da segurança pública, primeiro porque fala a língua do medo — e o medo é mais fácil de vender do que a esperança —, e depois por dar uma resposta fácil e violenta para um drama vivido diariamente por milhões de pessoas em cidades grandes como o Rio. Cansada, a população vê como uma vingança necessária aos bandidos que impõe restrições e medo em pessoas que honestamente vivem seus cotidianos.

O campo progressista se perde entre diagnósticos técnicos e discursos acadêmicos, incapaz de formular uma narrativa emocional sobre segurança pública. Fala de políticas de prevenção, mas esquece que o medo é o maior cabo eleitoral do país. O cidadão que vive sob toque de recolher não quer um seminário sobre desigualdade: quer a sensação, ainda que falsa, de que o Estado está no comando.

Enquanto isso, Cláudio Castro posa de xerife e redistribui holofotes. Transforma operação policial em ato de campanha. O discurso que promete “paz” pelo fuzil encontra solo fértil onde o Estado falhou em oferecer dignidade. Castro recebeu apoio de governadores de direita, embora esteja em evidente campo da retórica e da campanha eleitoral antecipada, que se reuniram no Rio de Janeiro nesta quinta-feira (30) para anunciar o que chamaram de “Consórcio da Paz”.
Cláudio Castro (RJ) entre os governadores Zema (MG) e Caiado (GO), no lançamento do "Consórcio da Paz".
Cláudio Castro (RJ) entre os governadores Zema (MG) e Caiado (GO), no lançamento do "Consórcio da Paz". / Charles Sholl/PhotoPress


A questão é que assim como o traficante não é uma vítima romântica do sistema, mas um agente brutal de sua própria guerra, o político que se omite diante da barbárie também é cúmplice. A diferença é que um opera no beco, o outro no palácio.

Então, uma ação direta do governador, ainda que deixe mais de uma centena de mortos, entre eles quatro policiais, é vista como necessária pela população. Há números: a operação foi considerada muito bem executada para 48% da população, considerada mal executada para 24%. Já 57% concordam com Castro sobre a operação ter sido um sucesso, e outros 39% discordam totalmente, segundo o DataFolha.

Entre direita e esquerda, o crime segue vencendo

Nos anos 1990, José Guilherme Godinho, o Sivuca, foi eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro. O slogan, ainda hoje usado por políticos e facilmente encontrado em comentários de redes sociais: “bandido bom é bandido morto”. Três décadas antes, Sivuca havia sido um dos integrantes da Scuderie Le Cocq, grupo de extermínio que deu origem às milícias.

Fila de corpos na Vila Cruzeiro, após operação no Complexo da Penha
Fila de corpos na Vila Cruzeiro, após operação no Complexo da Penha / Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo


O uso eleitoral da violência no Rio é percebido há pelo menos três décadas, onde ações como a Contenção apresenta grande rentabilidade eleitoral. Para além do financiamento direto de campanhas pelo crime — seja das milícias ou do tráfico —, o medo é diretamente proporcional ao desejo de uma solução rápida e por vezes violenta.

Na lógica bipolar atual brasileira, a direita clama por bala e a esquerda por direitos humanos — e nenhuma das visões oferece soluções reais ao problema, que é essencialmente de ordem técnica e dependente da cooperação federal. Além disso, operações policiais, bem sucedidas ou não, representam a força coercitiva e ostensiva do estado, e quando terminam, a ausência completa do ente estatal continua sentida, e a população permanece refém do crime.

O eleitor, exausto, tende a se agarrar ao primeiro que prometa segurança, ainda que a segurança venha marcada de sangue. Mas o que morre, antes de tudo, é a crença de que o Estado serve à vida.

E assim o Rio continua o mesmo laboratório de sempre, produzindo o melhor e o pior do Brasil, com todo peso histórico e simbólico de uma cidade que já foi capital do império e da república. No fim, o altar de Castro e a varanda gourmet de uma esquerda Zona Sul se encontram no mesmo templo: o da conveniência eleitoral. Um ora por votos, o outro por likes. E ambos, sem perceber, professam a mesma fé — a fé no oportunismo sem pecado.
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Sobre o autor

Edmundo Siqueira

edmundosiqueira@hotmail.com