Edmundo Siqueira
29/11/2025 23:22 - Atualizado em 29/11/2025 23:26
Pixabay
O deputado estadual do Paraná, Francisco Bührer (PSDB), foi perguntado pela equipe do jornal Gazeta do Povo como ele se posicionava ideologicamente — se era de esquerda ou de direita. A resposta do congressista, em julho de 2007, seria impensável hoje. “Nunca me perguntaram isso”, disse na ocasião, quando ele já contava mais de 20 anos de vida pública.
O restante da matéria da Gazeta (veja aqui) é ainda mais impressionante, aos olhos de hoje: 22 dos 54 deputados da Assembleia Legislativa do Paraná disseram que se consideravam de centro-esquerda, e apenas quatro parlamentares indicaram tendências de direita. O deputado Luiz Accorsi (PSDB) foi o único dos deputados da época que respondeu ao questionário dizendo, sem titubear, que é de direita.
Do levantamento de 2007 até hoje, o Paraná se transformou no quarto estado da federação mais à direita. Segundo pesquisa do DataSenado (veja aqui), feita em junho de 2024, entre os eleitores paranaenses, 36% se consideram de direita e apenas 11% de esquerda. O segundo estado apontado na pesquisa, Santa Catarina, tem apenas 1% a mais de eleitores direitistas.
A mudança
O que essas diferenças demonstram é que não houve apenas uma mudança de humor do brasileiro — seja político ou eleitor — com as esquerdas. Embora ela tenha acontecido, a migração maior foi entre quem não sabia ou não opinava sobre o assunto e passou a se autodeclarar de direita. E uma autodeclaração orgulhosa.
Ser de direita no Brasil até meados dos anos 2000 era um palavrão. A ditadura militar, identificada como direitista, mantinha no imaginário popular o histórico de violência e opressão, e os governos de esquerda que se iniciaram com a primeira vitória de Lula em 2002 ganharam grande apoio popular e altos índices de aprovação — em março de 2003, de acordo com pesquisa CNI/Ibope (veja aqui), a aprovação de Lula atingiu 75%.
Esse cenário começa a mudar drasticamente com o escândalo do Mensalão. Em dezembro de 2005, em pouco mais de dois anos do auge, a aprovação de Lula registrava 42%. Os casos de corrupção descobertos pelo mensalão foram acompanhados como um folhetim pelos brasileiros, mas embora tenha afetado o primeiro governo Lula sua popularidade foi recuperada com sua reeleição.
O então deputado Roberto Jefferson, expondo os envolvidos no escândalo do Mensalão.
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Memoria da Democracia
Mas a recuperação de popularidade de Lula, embora tenha sido fundamental para eleger e reeleger Dilma Rousseff (a presidente chegou a ter apenas 9% de aprovação, veja aqui), não foi o bastante para conter os impactos de uma mega operação então batizada de Lava Jato. Deflagrada em março de 2014, cumpriu mais de mil mandados de busca e apreensão, de prisão temporária, de prisão preventiva e de condução coercitiva, para apurar um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou bilhões de reais em propina, denominado Petrolão.
Brasil no Espelho
A pesquisa “Brasil no Espelho” (veja aqui) da Rede Globo, feita em parceria com a Quaest, divulgada em agosto de 2025, considerada como “o maior estudo já feito no país sobre valores, atitudes e percepções”, trouxe vários assuntos e entre eles quantas pessoas no Brasil estariam na direita, na esquerda e no centro.
O que a pesquisa apontou mostra claramente que o brasileiro começou a migrar para a direita a partir de 2014. Naquele ano, direita e esquerda empataram: 29% dos brasileiros se consideravam de esquerda e o mesmo percentual estava no polo oposto. No centro estavam 26%. O que se viu a partir disso foi um crescimento vertiginoso da direita.
De 2014 a 2019, os 29% de brasileiros que estavam na direita passaram a ser 39%. A esquerda caiu um ponto e o centro se manteve. Com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, a direita alcança seu auge até aqui, de acordo com a pesquisa. A partir de 2019, ainda no governo Bolsonaro, a direita começa a declinar e chega a 2023 com 36%, e a esquerda, apresentando uma queda ainda maior, chega a 23%.
Ainda de acordo com a pesquisa, o centro teve um crescimento semelhante ao que teve a direita a partir de 2014. O centro sai de 26% em 2019 para 37% em 2023, superando a direita. A última vez que o centro tinha superado direita e esquerda aconteceu em 2012, quando somava 31% contra 27% da esquerda e 26% da direita.
Disponível em https:/gente.globo.com/brasil-no-espelho/
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Pesquisa ENTITY_quot_ENTITYBrasil no EspelhoENTITY_quot_ENTITY, feita pela Rede Globo em parceria com a Quaest
Esses dois momentos trazidos na pesquisa — 2014 a 2019 e 2019 a 2023 — dizem muito sobre o Brasil e hoje e como o posicionamento político do brasileiro passou a ser uma questão de identidade. E não por coincidência, a Lava Jato marcou a mudança mais radical no gráfico de espectros ideológicos do país, e há dois motivos principais para que isso tenha acontecido.
O primeiro diz respeito à chamada “demonização da política”, quando uma enxurrada de delações, imagens, vídeos e áudios dos malfeitos políticos dominavam o noticiário e passaram a ser o assunto principal nas rodas de conversa da população. O governo, então do PT com Dilma Rousseff, passou a ser visto como um mal a ser extirpado, e ser “de esquerda” assumiu quase a mesma posição envergonhada da direita de 2007, com os deputados do Paraná.
A segunda questão foi a profunda crise econômica que o país atravessava. Tão grave que atingiu índices piores que a recessão dos anos 1930, com uma retração acumulada de 7,2% do PIB em 2015 e 2016, resultado de uma série de choques de oferta e demanda, desvalorização cambial, aumento de juros e inflação.
Foi a tempestade perfeita. Crise econômica e política demonizada construíram um cenário onde o brasileiro médio não se via representado e culpava o governo pelas dificuldades que passava. Não sem razão, criou-se um ambiente de ressentimentos, desconfiança e revolta. Ecos que foram potencializados pelas redes sociais e seus algoritmos que precisam desses sentimentos para manter os acessos em alta.
Identidade pessoal e política
É possível pensar o “fenômeno Bolsonaro” a partir dessa perspectiva, um deputado federal do baixo clero que vocalizava muitos desses sentimentos na tribuna e na televisão e como poucos personificava o antipetismo. Há outros fatores que levaram Bolsonaro ao poder em 2018, mas o processo que a Lava Jato deu início no país em 2014 acabou por criar as condições para que eles coexistissem.
O bolsonarismo como identidade.
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UFRJ
Não foram apenas os números da direita e do centro que cresceram isoladamente, foi, essencialmente, o crescimento de brasileiros que passaram a vincular sua própria identidade à política e à necessidade de se alinhar a um dos polos ideológicos. O posicionamento político passou a fazer parte da identidade do brasileiro e, por consequência, a criação de divisão de grupos polarizantes, que contam com linguagem, símbolos e cores próprias.
O novo crescimento do centro mostra que esse ciclo está chegando ao fim? A recente prisão de Bolsonaro tem força para deixar a direita menos radical? A esquerda conseguirá criar uma afinidade maior com o brasileiro para além da figura de Lula? As próximas eleições serão determinantes para responder essas perguntas.
Mas o fato é que o Brasil mudou — e rápido demais para que nós, brasileiros, entendêssemos o que estava acontecendo. Em menos de duas décadas, saímos de um país onde deputados tinham vergonha de dizer que eram de direita para um cenário em que identidades políticas se tornaram bandeiras penduradas no peito, em carros, nas redes e até nos afetos.
Recuperar o direito de pensar sem pedir autorização ao grupo e de ser brasileiro antes de ser de esquerda, de direita ou de qualquer outra coisa: o futuro — ainda que turvo — pode começar por aí.