Dora Paula Paes
31/01/2026 10:11 - Atualizado em 31/01/2026 10:11
Divulgação
Projeto social e teatral, em Campos, se propõe a levar o letramento racial da rua às escolas. A meta é transformar vivências em consciência coletiva. Por isso, em meio aos desafios históricos enfrentados pela educação brasileira para lidar com as desigualdades raciais, a iniciativa cultural tem chamado atenção ao transformar o palco em sala de aula e espectadores em agentes de mudança.
A proposta nasce do encontro entre teatro, educação e militância antirracista, conduzida pelo movimento social Negritude Plena, sob coordenação de Alba Valéria, mulher negra que converteu experiências pessoais de exclusão em ação pedagógica, artística e política. “Estamos abertos para levar esse projeto até as escolas”, informa Alba.
A motivação do projeto remonta à infância de Alba, quando, ainda estudante, ouviu de uma professora que não poderia interpretar uma princesa em uma atividade escolar por não corresponder ao padrão racial associado a esse papel. O episódio, marcado pela violência simbólica do racismo, deixou marcas profundas e, décadas depois, tornou-se ponto de partida para uma proposta que busca romper silêncios, ressignificar imaginários e ampliar horizontes para crianças negras dentro e fora das escolas.
A iniciativa se materializa na montagem da peça “O Riso da Princesa Leila”, encenação teatral que recria situações recorrentes do cotidiano escolar. No centro da narrativa estão duas meninas e a figura materna, atravessando conflitos provocados pela discriminação racial. A personagem Mãe, interpretada por Samyla Jabor, em alguns momentos revezada com Alba Valéria, representa o acolhimento e a mediação afetiva. A Menina vítima de violência racial, vivida por Maria Giovanna Crespo, carrega uma dimensão autobiográfica, já que a atriz também sofreu discriminação na escola por parte de uma colega que não se reconhecia como negra, embora o fosse. A Fada, interpretada por Estela Dias, surge como figura simbólica de fortalecimento, sabedoria e ruptura dos limites impostos pelo preconceito.
Ao apresentar à filha referências negras potentes, a mãe evoca o legado intelectual e político de Lélia Gonzalez, ressignificada na peça como símbolo de realeza, pertencimento e consciência racial. A fantasia se mistura à realidade quando, em sonho, a entidade mágica oferece à menina palavras de afirmação que confrontam estigmas e constroem novas possibilidades de identidade.
Inicialmente apresentada em formato tradicional, com separação entre plateia e atores, a peça ganhou novos contornos a partir das reações do público. O relato de uma criança, que se reconheceu na cena de discriminação, revelou que o teatro poderia ir além da sensibilização: era necessário provocar envolvimento direto.
Diante disso, o Negritude Plena, em parceria com a Cia Caixola de Baco, reformulou a proposta cênica incorporando os princípios do Teatro do Oprimido, metodologia criada por Augusto Boal.
Lei para ser cumprida
É nesse contexto que o projeto desenvolvido pelo Negritude Plena se insere de forma coerente e necessária. Ao articular teatro, vivências reais e participação ativa dos estudantes, a iniciativa materializa os princípios da Lei 10.639/03 para além do papel, transformando a legislação em prática viva, sensível e coletiva. Neste caso, o palco torna-se extensão da sala de aula; o corpo, território de memória; e a arte, instrumento pedagógico legítimo para o debate racial.
"Assim, “Arte em Cena, Racismo em Debate” reafirma que cumprir a Lei 10.639/03 não é apenas incluir conteúdos no currículo, mas promover experiências educativas", disse Alba.