Em junho de 2024, viajei de Lisboa a Bragança, em Trás-os-Montes, de onde segui para Miranda do Douro. Algumas pessoas me disseram que eu nada encontraria de interessante por lá. Eu sabia que sim, antes de sair do Brasil. Não viajo para comer, beber e frequentar baladas fora de casa. Minhas viagens são programadas dentro das minhas possibilidades de conhecimento. Sou mais um peregrino do que um turista.
E tenho um método de viagem que não interessa ao turista movido pelo consumismo. Observo o ambiente natural, o céu, os astros, a terra, a constituição geológica, os rios, as plantas, os animais e a cultura do lugar. Fui apanhado de surpresa em Miranda do Douro por um arco-íris formando-se a minha frente. Ao deparar com um trecho do rio Douro num cânion pacientemente escavado ao longo de milhões de anos. Ao caminhar às margens do Fresno, afluente do Douro. Ao sorver o frescor do ar e contemplar a relva a meus pés, com plantinhas florescendo. Lembrei-me do alecrim dourado. Deve ter existido floresta no passado. Agora, encontrei árvores aparentemente nativas. Mas nunca esqueço da cultura em todas as suas manifestações: língua falada e escrita, religião, literatura, arquitetura, artes visuais, música e culinária.
Arthur Soffiati
No Concelho (município) de Miranda do Douro, fala-se o português e o mirandês, a segunda uma língua do grupo asturo-leonês. Sendim é uma freguesia (distrito) de Miranda do Douro. Lá se fala, em família, o sendinês, variedade do mirandês. Aliás, não encontrei ninguém que falasse o mirandês publicamente na cidade. A língua é ensinada nas escolas. Um jornal de Bragança destina parte de uma página a artigos redigidos em mirandês. Adquiri um exemplar.
Caminhei maravilhado pela cidade. Visitei as ruínas do castelo medieval reconstruído pelo rei D. Dinis (1279-1325). Ele foi um monarca que se empenhou na definição da fronteira entre Portugal e Espanha, países que ainda não estavam formados. A fronteira entre ambos Estados é conhecida como A Raia. Daí raiano. A definição da Raia tornou-se mais clara em 12 de setembro de 1297, quando foi assinado o Tratado de Alcanizes entre Portugal e Castela para evitar conflitos entre os dois reinos, ambos em guerra contra os mouros. Essa fronteira se estende do rio Minho, no Norte, até a foz do rio Guadiana, no extremo sul dos dois países.
Arthur Soffiati
A Raia foi fortificada por castelos de ambos os lados. Fronteiras costumam favorecer encontros culturais e diversidade. Reverente, visitei a igreja de Santa Maria Maior. Lá, encontrei a imagem de Nossa Senhora do Leite. A virgem amamenta o Menino Jesus. Analistas frios dizem que o Cristianismo absorveu entidades pagãs. Essa é uma das forças do Cristianismo, que aceita imagens. Nossa Senhora aparece grávida e amamentando logo após o parto. Ela é uma santa humana.
Visitei a Casa de Cultura de Miranda do Douro e adquiri livros. Eu já conhecia um pouco da literatura mirandesa. A música de Miranda do Douro tem fortes ligações com a música da Galicia. Nela, a gaita de foles tem papel preponderante. Por fim, não esqueço a culinária, com destaque para os pratos típicos do lugar.