Heloísa Helena: "Acho Lula favorito à reeleição"
Aluysio Abreu Barbosa, Cláudio Nogueira, Gabriel Torres e Hevertton Luna 07/01/2026 07:50 - Atualizado em 07/01/2026 08:34
A deputada federal Heloísa Helena
A deputada federal Heloísa Helena / Reprodução
“Tenho amigos queridos no PT e tenho inimigos implacáveis lá também, e não tenho nenhum medo deles. Olho para eles e digo “pode vir quente, estou fervendo”. Foi o que disse a ex-senadora, ex-candidata à Presidência e deputada federal, Heloísa Helena (Rede), entrevistada desta terça-feira (6) no programa Folha no Ar da rádio Folha FM 98,3. Pré-candidata à reeleição para deputada, ela falou sobre a disputa à presidência, as chances do presidente Lula e dos nomes apresentados pela direita para o pleito. Ela analisou os rumos da Rede Sustentabilidade, a federação com o PSOL e o cenário eleitoral para governador e senador no Estado do Rio. Além de comentar sobre a construção do orçamento federal para este ano. Ela analisou o caso do Banco Master e seus desdobramentos. Por fim, analisou a invasão dos Estados Unidos à Venezuela e a posição brasileira frente ao mundo.
Eleição a presidente – “Realmente não tenho elemento de dizer quem é que vai ser o candidato, acho que o atual presidente é o candidato favorito. Acho que o outro lado é forte, mas eles não têm mais condições de ganhar a presidência da República. Estou falando sem nenhum instrumento de pesquisa qualitativa, de pesquisa quantitativa. Eu digo assim, são os movimentos da história que não se repetem com um tempo tão curto. Acho que hoje, realmente, o favorito é o atual presidente da República. O Brasil não se dá o direito de fazer o debate sobre a vida nacional. Ninguém discute mais o BPC (Benefício de Prestação Continuada), os rios da Amazônia que vão ser privatizados, o veto em relação à questão da Eletrobras, a questão dos Correios, o dinheiro que foi retirado da previdência pública, a fila da previdência que triplicou. Ninguém discute questões da vida real porque agora tem essa questão (EUA).”
Relação com o PT – “Tenho amigos queridos no PT e tenho inimigos implacáveis lá também, e não tenho nenhum medo deles. Olho para eles e digo “pode vir quente, estou fervendo”. Aliás, pode vir fervendo que estou feito lava vulcânica. Independente de ser grande, poderoso, não estou nem aí com isso. Tenho amigos muito queridos também que sentamos, debatemos, debatemos questões programáticas, debatemos tudo.”

Hegemonia do PT – “Tem gente lá se acotovelando. Qual é a máxima? É a máxima do programa? Não, é a máxima da hegemonia de um único partido que, se não aniquilar qualquer outra personalidade política que ouse desafiar a estrutura de poder, que ouse tentar disputar no imaginário popular, ele é aniquilado. Não basta derrotar, tem que aniquilar. Eu estou dizendo porque eu vivenciei isso da pele. Eu digo, não é que nós somos santinhos, bonitos, não tem nada a ver. Nem Brizola, nem eu, nem Ciro, ou Marina, nem ninguém. Não é isso. Mas o problema é que quando tem essa concepção de hegemonismo, de uma única força política, ela intencionalmente destrói qualquer um que apareça na sua frente. Não é só derrotar eleitoralmente, é aniquilar politicamente. Agora, quando traz a pessoa para a junto do governo, fica bem. Mas enquanto não traz, ele vai fazer isso.”

Pré-candidatura – “Nesse pequeno tempo de mandato relâmpago, a gente continua trabalhando muito para cumprir a nossa obrigação. Porque não é benevolência nenhuma, é cumprir a nossa obrigação de fazer com honra, com coragem, com disciplina e cotidiana. E já era a nossa pretensão, mesmo que não tivesse, por uma circunstância dramática da história, ocupado esse espaço. Então, no nosso caso, eu sou pré-candidata a deputada federal e, com todo o respeito que a gente tem que ter a todas as outras candidaturas, independente do viés ideológico com o qual ela se identifica, mas é respeito nosso.”

“Sou uma derrotada eleitoral, mas invencível politicamente” – “Eu também perdi eleições. Então, não é que eu perdi achando que ia ganhar. Na verdade, eu sempre digo, tenho até uma frase que repito meio como mantra para mim, porque em algumas vezes as pessoas dizem “Ah, derrotada, perdeu de novo, não sei o quê”. Eu até repito como quase que um mantra, que eu sou derrotada eleitoralmente, mas sou invencível politicamente. Cada pessoa tem uma forma de ver a militância política. Para mim, vender minhas convicções para ganhar um mandato está totalmente fora de cogitação.”

Prioridade da Rede – “A gente não tem a pretensão e não pode ter a arrogância de dizer que a gente sozinho ultrapassaria a cláusula de barreira. É impossível. A Rede só não faz. Nós não fizemos nove na eleição passada. Os dois que nós elegemos diretamente foram eleitos pela federação. Então, a nossa prioridade é deputado federal. Não é qualquer candidatura de deputado federal. Então, a gente precisa eleger os deputados federais.

Disputa ao Senado – “O Molon é uma pessoa queridíssima nossa, é um quadro extremamente valoroso. Então, são duas vagas, se fosse para votar no Molon e na Bené, eu, pelo menos, não teria nenhum problema. Agora, eu não falo pelo PSOL, não estou nem falando pela Rede. Mesmo sendo dirigente nacional dela, porque é um debate que a gente ainda vai fazer. Mas acho que são dois nomes que seriam muito importantes. O Molon é um quadro de altíssimo valor do PSB. O que é que vão dizer? Talvez alguém diga assim “Ah, mas como é que nós vamos apoiar dois candidatos a senadores que estão apoiando outra candidatura ao governo?”. Então vai ser esse o elemento definidor? Vai apresentar um único nome para dizer, então vamos dobrar com o segundo de lá, essa tática meio oportunista?
Favoritismo de Paes – “Não estou fazendo declaração de apoio, não tenho nenhum elemento de pesquisa qualitativa e quantitativa. E a mesma coisa agora. Eu vou votar na candidatura que a federação discutir. Eu posso até na federação fazer o debate que eu quiser, mas eu vou votar. Mas eu sinto isso (favoritismo de Eduardo Paes). Sinto como cidadã.”

Nome da direita – “Na cozinha do mundo da política, nos esgotos que eles frequentam, independente do viés ideológico que tragam, isso aí não sei. Mas acho muito difícil que eles tenham uma candidatura. Tem essa questão que de São Paulo, acho muito difícil. Porque São Paulo também tem essa coisa de querer ser dono do mundo. Em todos os partidos, até na Rede, sentimos isso também, de querer ser dono do mundo. Acho difícil que o governador de São Paulo abra a mão de uma disputa no Estado. Porque tem os outros dias, o presidente da República já está na reeleição. Agora, já tem gente se acotovelando para ver quem vai ser o sucessor dele.”

Direita no Rio – “A gente sente o quanto eles são fortes. Eles são muito fortes aqui. Eu sinto isso. Às vezes, até digo assim, eu fico como se fosse apanhando dos dois lados. Porque, como eu não fico lambendo o rastro por onde passa o poder e não abro mão de fazer as críticas ao governo Lula, é como se eu apanhasse dos dois lados. Ideologicamente de um, e como não estou lambendo o rastro por onde passa o poder, da turma, da base bajulatória do atual governo também. Porque é isso que dá. Você não tem a ética seletiva, você não tem a moral das conveniências, você não tem a ética que critica no adversário o que acoberta nos seus.”
Caso Master – “Em uma Comissão Parlamentar de Inquérito, quem não tem culpa, quem prova sua inocência, vai sair ainda maior. Agora, quem de alguma forma está envolvido nos esgotos da política brasileira, no Banco Master, que envolve muita gente do Judiciário, dos Executivos, porque aí vai desde o governador do Rio de Janeiro, o governador de Brasília, que compraram títulos. Porque tem coisas que desafiam a lógica formal, que não há como não dizer que tem algum mecanismo sujo por trás. Quando você começa a vender papéis em um banco minúsculo, porque são bilhões envolvidos. Mas quando você começa a alavancar a venda de determinados títulos com benefícios tão grandes, tem que ter algo sujo na história. Ou lavagem de dinheiro sujo do crime, ou dinheiro público sendo utilizado, ou gente dos três poderes sendo beneficiados. Desafia a lógica formal.”

CPI do Banco Master – “Apanho por estar propondo essa CPI. Porque, na verdade, se fosse só uma CPI da Câmara e do Senado, ela se submeteria à fila que existe na mesa da Câmara e do Senado. Então, para não atravessar nenhuma fila do ponto de vista regimental, precisa ser uma CPI mista. E a Fernanda Melchionna, querida, corajosamente, uma jovem parlamentar do Rio Grande do Sul, que topou assinar. Nós fizemos uma formulação de mais de 14 páginas, dando conta só do requerimento de pedido, para não dizer que a gente estava definindo, fazendo juízo de valor com base no que estava sendo publicado.”

Orçamento da União – “Dois dias depois (da posse), votar um orçamento com um grande acordão com o Governo, porque o PL votou com o Governo, lá no plenário para votar um orçamento que roubava dos pobres. Porque é dos pobres que a gente está falando. É mais fácil a gente falar da nossa universidade, minha universidade querida, que eu passei a vida toda na universidade. Então, é mais fácil. Todo mundo vai para a rede social dizer: “Olha, tiraram quase R$ 500 milhões das universidades”. É inaceitável que tenha feito isso. É um acordo do Congresso com o Governo para aumentar a pança das emendas de orçamento, que foi o que aconteceu lá. Agora, imagina o que é que significa tirar R$ 6 bilhões da Previdência, onde tem uma fila gigantesca de acesso ao que é mais óbvio.”

Execução orçamentária – “Todos os deputados, seja de esquerda ou de direita, de qualquer lugar, tem direito a R$ 40 milhões de emenda de execução obrigatória. Fora emenda de bancada, fora emenda da safadeza do secreto e outras coisas mais. Mas o que é que a gente está montando? A gente está tentando fazer isso, estamos estruturando uma ferramenta técnica. Eu sei que o Senado faz, várias entidades fazem também, que são as emendas de execução obrigatória. Lembra aqueles firmes de máfia que dizem “Siga o dinheiro”. Ver onde é que está o dinheiro. Porque eu digo sempre que para discutir o orçamento, a gente tem que discutir o chamado tridente da maldade. Nem é o tridente do netuno, nem dos mensageiros dos orixás. O que é? É o Executivo, o Legislativo e quem vai se beneficiar. Porque toda vez que você falar de orçamento, você tem que falar quem foi que colocou essa emenda no orçamento. Quem foi que executou essa emenda do orçamento? E quem foi realmente o beneficiado com ela? Então, esse observatório da execução orçamentária, ele é de fundamental importância.”

Donald Trump – “A única pergunta que tem que se fazer é o seguinte: quem ungiu o presidente dos Estados Unidos para ser dono de todos os países? Quem foi que deu a ele essa autoridade? Quem foi que deu a ele a autoridade de dizer o petróleo da Venezuela é dele? Quem deu a ele essa autoridade? É isso que tem que se perguntar. Não tem nada a ver. Porque se tivesse a ver com democracia, qualquer intervenção que fosse feita ia dizer assim “Está bom, agora vamos abrir o processo democrático limpo, sem fraude eleitoral, fiscalizado pela comunidade internacional, representando em todos os países”. Por que isso não está sendo feito? Porque é que nada relacionado a isso está sendo feito?”

O Brasil no Mundo – “Os Estados Unidos fez isso em todos os lugares, e sempre em relação ao petróleo. Talvez não faça isso no Brasil, porque no Brasil já tem esse componente meio entreguista. Até quem se diz patriota no Brasil, que mente dizendo que é patriota, é entreguista do que é estratégico. A prova disso é a privatização de setores estratégicos, como a água, energia, comunicação e outras coisas mais. Talvez não faça no Brasil por isso, e até porque a nossa amada e resistente Petrobras, muitas vezes estabelece o preço e a sua dinâmica contábil mais pela bolsa de valores, para os interesses dos seus acionistas, do que para o interesse mesmo nacional em relação a quem usa combustível no Brasil e outras coisas mais.” 

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