Tabuleiro político fluminense em observação
Após a prisão do agora ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil), o tabuleiro político fluminense tornou-se um grande ponto de interrogação. Soma-se a isso o desbloqueio dos aparelhos celulares de Bacellar, do desembargador Macário Neto e do chefe de gabinete do parlamentar, Rui Bulhões, além da iminente sucessão do governador Cláudio Castro (PL). Diante desse cenário multifacetado, os analistas políticos George Coutinho e Hamilton Garcia avaliam como as peças tendem a se movimentar ao longo deste ano.
A queda de Bacellar da presidência da Alerj foi determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, após o suposto vazamento de informações da Operação Zargun, que resultou na prisão do ex-deputado TH Joias. Com isso, a cadeira da presidência da Casa Legislativa passa a ser disputada.
Segundo o professor George Coutinho, o novo chefe do Legislativo fluminense, Guilherme Delaroli (PL), é politicamente mais próximo de Altineu Côrtes (PL) do que de Rodrigo Bacellar.
“É preciso refletir sobre o quão funcional pode ser, no cenário fluminense, a presença de um representante do bolsonarismo à frente da Alerj para os objetivos de Flávio Bolsonaro em uma eventual disputa pela Presidência”, analisa Coutinho.
Já Hamilton Garcia avalia que, no âmbito da Alerj, “tudo tende a seguir o mesmo caminho peculiar e burocrático” após a assunção regimental do primeiro vice-presidente. Segundo ele, a eleição quase consensual que levou Bacellar ao comando da Casa não refletia, de fato, as divisões políticas presentes na sociedade fluminense.
Outro ponto considerado pacífico no cenário político do Rio é a possível saída de Cláudio Castro do governo estadual. O governador vem pontuando bem nas pesquisas para o Senado e, com uma eventual candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), sua posição na disputa por uma das vagas tende a se fortalecer.
Coutinho avalia que o bolsonarismo vive um momento de crise e precisa preservar seu capital político no Rio de Janeiro, estado que projetou nacionalmente Jair Bolsonaro e consolidou seu estilo de atuação política.
“Para o projeto nacional do bolsonarismo, a manutenção da hegemonia fluminense segue sendo estratégica, ainda mais após a prisão de Jair Bolsonaro, evento que desencadeou um relativo esvaziamento do poder de fogo desse grupo político”, afirma.
Garcia destaca que Cláudio Castro tem evitado críticas diretas ou polêmicas sobre o processo envolvendo Bacellar, numa tentativa de manter o pacto político em torno de sua sucessão.
“É de se esperar que os atores políticos adotem um discurso eleitoral em defesa da ‘higienização’ da política e da intolerância absoluta a quaisquer relações com o crime organizado”, analisa.
Ainda neste ano eleitoral, novos desdobramentos não estão descartados, especialmente após a Polícia Federal ter acesso aos celulares de Bacellar, Macário Neto e Rui Bulhões.
Para George Coutinho, mais do que a responsabilização individual, as investigações podem lançar luz sobre questões estruturais da política fluminense.
“Além dos processos penais, esse caso pode esclarecer algo fundamental: qual é a relação entre a política formal e o crime organizado no Rio de Janeiro? Qual a extensão dessa contaminação e como se estrutura seu modus operandi? A troca de mensagens entre Bacellar e o juiz federal Judice Neto também levanta questionamentos sobre a conexão entre o Judiciário e o alto escalão da política fluminense”, pontua.
“Muito além da necessária punição de indivíduos, operações dessa complexidade podem gerar desdobramentos amplos, com potencial de reverberações estruturais”, conclui.
“Muito além da necessária punição de indivíduos, operações dessa complexidade podem gerar desdobramentos amplos, com potencial de reverberações estruturais”, conclui.