Tabuleiro político fluminense em observação
Hevertton Luna 03/01/2026 07:44 - Atualizado em 03/01/2026 09:01
George Coutinho e Hamilton Garcia
George Coutinho e Hamilton Garcia / Acerco Folha
Após a prisão do agora ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil), o tabuleiro político fluminense tornou-se um grande ponto de interrogação. Soma-se a isso o desbloqueio dos aparelhos celulares de Bacellar, do desembargador Macário Neto e do chefe de gabinete do parlamentar, Rui Bulhões, além da iminente sucessão do governador Cláudio Castro (PL). Diante desse cenário multifacetado, os analistas políticos George Coutinho e Hamilton Garcia avaliam como as peças tendem a se movimentar ao longo deste ano.
A queda de Bacellar da presidência da Alerj foi determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, após o suposto vazamento de informações da Operação Zargun, que resultou na prisão do ex-deputado TH Joias. Com isso, a cadeira da presidência da Casa Legislativa passa a ser disputada.
Segundo o professor George Coutinho, o novo chefe do Legislativo fluminense, Guilherme Delaroli (PL), é politicamente mais próximo de Altineu Côrtes (PL) do que de Rodrigo Bacellar.
“É preciso refletir sobre o quão funcional pode ser, no cenário fluminense, a presença de um representante do bolsonarismo à frente da Alerj para os objetivos de Flávio Bolsonaro em uma eventual disputa pela Presidência”, analisa Coutinho.
Já Hamilton Garcia avalia que, no âmbito da Alerj, “tudo tende a seguir o mesmo caminho peculiar e burocrático” após a assunção regimental do primeiro vice-presidente. Segundo ele, a eleição quase consensual que levou Bacellar ao comando da Casa não refletia, de fato, as divisões políticas presentes na sociedade fluminense.
Outro ponto considerado pacífico no cenário político do Rio é a possível saída de Cláudio Castro do governo estadual. O governador vem pontuando bem nas pesquisas para o Senado e, com uma eventual candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), sua posição na disputa por uma das vagas tende a se fortalecer.
Coutinho avalia que o bolsonarismo vive um momento de crise e precisa preservar seu capital político no Rio de Janeiro, estado que projetou nacionalmente Jair Bolsonaro e consolidou seu estilo de atuação política.
“Para o projeto nacional do bolsonarismo, a manutenção da hegemonia fluminense segue sendo estratégica, ainda mais após a prisão de Jair Bolsonaro, evento que desencadeou um relativo esvaziamento do poder de fogo desse grupo político”, afirma.
Garcia destaca que Cláudio Castro tem evitado críticas diretas ou polêmicas sobre o processo envolvendo Bacellar, numa tentativa de manter o pacto político em torno de sua sucessão.
“É de se esperar que os atores políticos adotem um discurso eleitoral em defesa da ‘higienização’ da política e da intolerância absoluta a quaisquer relações com o crime organizado”, analisa.
Ainda neste ano eleitoral, novos desdobramentos não estão descartados, especialmente após a Polícia Federal ter acesso aos celulares de Bacellar, Macário Neto e Rui Bulhões.
Para George Coutinho, mais do que a responsabilização individual, as investigações podem lançar luz sobre questões estruturais da política fluminense.
“Além dos processos penais, esse caso pode esclarecer algo fundamental: qual é a relação entre a política formal e o crime organizado no Rio de Janeiro? Qual a extensão dessa contaminação e como se estrutura seu modus operandi? A troca de mensagens entre Bacellar e o juiz federal Judice Neto também levanta questionamentos sobre a conexão entre o Judiciário e o alto escalão da política fluminense”, pontua.
“Muito além da necessária punição de indivíduos, operações dessa complexidade podem gerar desdobramentos amplos, com potencial de reverberações estruturais”, conclui.

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