Folha Letras - Na corte do Rei Momo
28/01/2026 08:46 - Atualizado em 28/01/2026 08:46
Reprodução/ilustração Gipson de Freitas
Herbson Freitas*
Infelizmente em Campos dos Goytacazes o Carnaval (“C” maiúsculo) levou a breca. Coitado dos carnavalescos. A Prefeitura tanto fez que acabou com a alegria da moçada. Agora, só “CarnaFarol”, isto é, desfile de trenzinho e uma banda em cima de um trio elétrico, tocando e cantando as velhas marchinhas carnavalescas, e o povão, à beira-mar, batendo palmas.
Talvez tenha acabado por motivos financeiros. O Carnaval de antigamente, custava à Prefeitura “uma baba”, sem nenhum retorno. Era apenas para agradar aos que não podiam sair da cidade. Politicamente falando (ou escrevendo), no entender da Municipalidade, não dava o devido retorno...

Mas vamos ao Carnaval propriamente dito. Tudo começou em eras passadas. Existem duas ou três versões sobre o seu surgimento. No entanto, a mais provável é a chamada “festa da carne”, que etimologicamente provém do baixo latim “carnelavarium”, expressão que quer dizer corretamente “Adeus carne”, numa interpretação mais popular: liberdade, festa, alegria e outras “coisitas” mais, isto porque Rei Momo é o rei da zombaria, segundo a mitologia.
Reprodução/ilustração Gipson de Freitas

Há mais de 400 anos e procedente de Portugal, chega ao Brasil o Carná português, com certeza... No entanto, muito antes, os índios já faziam o seu “carnaval” ao som de batuques, maracás, chocalhos e outros instrumentos artesanais e até então primitivos.

Mais tarde, os negros também faziam a sua festa popular ao som de tambores, “surdos”, chocalhos, lundus, jongos e corimas. E ainda dançavam e cantavam “lamentos”. Mas o nosso Carnaval de verdade desembarcou no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, em 1614, portanto, há cerca de 412 anos.

O Carnaval era conhecido como a despedida dos prazeres mundanos antes do período religioso da “Quaresma”. A festa que era da “carne” passou a ficar conhecida mais tarde como o “Carnaval do Entrudo”, que ocorria naquele tempo justamente antes do início da “Quaresma Cristã”, passando em seguida a ser festejada como o “Carnaval do Entrudo”, folguedo antigo que consistia em atirar objetos em galhofas, como ovos podres, jatos d’água, farinha de trigo, “limão de cheiro”, laranjas. E “Seu” Manoel, velho português, não tendo o que jogar, jogava baldes d’água, em pleno Carnaval, nos transeuntes que passavam pela porta de seu botequim. Coisas do tempo do Rei...

Em Campos dos Goytacazes data um pouco mais ou um pouco menos, mas quase no mesmo período do Rio. No entanto, foi no ano de 1857 que teve a sua primeira ou seu primeiro destaque com os préstitos (carros alegóricos) a pé, a cavalo e em carrinhos e depois em montagens maiores.

E começou a ganhar corpo em 1877, com a fundação do Clube Netuno. Surgindo, em seguida, os Clubes Macarroni, Indiano Goytacaz e Tenentes de Plutão (ou Plutões), cuja sede abriga hoje o Teatro de Bolso ou Procópio Ferreira, mas que deveria ser do campista Gastão Machado, autor de cerca de 40 peças teatrais, quase todas encenadas.

Nessa época, existia em Campos um dos maiores artistas plásticos daqueles tempos, conhecido por “Sr. Baldomero”, que tinha o seu atelier na Rua Barão do Amazonas, fundos da antiga CEDAE. Ele fazia excelentes bonecos para os desfiles carnavalescos. E também, na mesma ocasião, surgiu S. M. Rei Momo, interpretado por Waldemar Prata, alto funcionário da antiga CTB, o primeiro Rei oficial.

O Carnaval de rua, como era chamado (e ainda o é), surgiu mais ou menos na época dos préstitos. Eram os “mascarados sujos”: “Mamãe eu quero... mamar” (marcha oficial do Cordão do Bola Preta do Rio de Janeiro), “Tit-Ica” (dois palhaços), “A mar foi minha ruína” (mulher grávida), “Farrapos e molambos” (dois mascarados rasgados), entre outros tipos da gandaia. O Carnaval antigo, que era na Praça do SS. Salvador, antes das inovações feitas pela Prefeitura, foi transferindo para outro local: Av. 15 de Novembro (Beira-rio). Na ocasião, na Praça, era igual ao da Bahia: livre, solto, leve e contagiante, não deixando de haver os normais desentendimentos entre foliões beberrões.

Mais tarde, surgiram o Corso (desfile de carros pela cidade), o lança-perfume e muitos confetes e serpentinas em profusão nas batalhas do Clube Itatiaia e do Bloco “Os Caveiras”. E aproveitando o ensejo, a nossa homenagem às mais variadas figuras do nosso Carná (talvez tenha escapado algum nome que vai ficar para o próximo tríduo momesco): Patesko, “Brinquinho”, Agnelo Lessa (rumbeiro), “Pintinho” (visitante), Zazau, Baçu, Moacir Ferreira, Benedito “Apaga a Luz”, Agnelo Peixoto, “Macumba”, “Macaco”, “Tomatão”, Jorge da Paz Almeida”, Salvador da Transfiguração (fundador do jornal carnavalesco “O Folião”, mais tarde “O Carnavalesco”, deste autor), Fernando Gomes, Nicolau Louzada, Nilson Maria Pessanha, “Juquinha” (Companheiros Unidos de Guarus), Josélio Rocha (foi Rei Momo por dois dias), Chico Teimoso, professor Roney, Argeu Nani, Jolivete Lourenzoni, Rodoval Bastos Tavares, Auri Fonseca, Orávio de Campos Soares, Sidinho Ramos e tantos e tantos outros.

Quem quiser conhecer mais sobre a nossa “festa do povo” é só consultar os livros: “Campos: 50 anos de Carnaval”, do compositor Jorge das Paz Almeida, e “Confissões de um Lord Carnavalesco – Lord Broa”, da professora Cláudia Márcia Genásio de Souza.

O Carnaval campista, particularmente as sociedades carnavalescas sofreram, ao longo dos tempos, inúmeras mudanças: entidades que desapareceram por isso, aquilo ou aquiloutro e outras que surgiram mais não foram à frente, mesmo com a construção do CEPOP, que não vem sendo usado como devia. E, por fim, o que a Administração Municipal vem fazendo é incentivar o “CarnaFarol” da praia do mesmo nome, que agrada carnavalescamente e politicamente ao povão da Baixada. O “negócio” agora é “praiar”!..., não espernear e brincar...

Salve, S. M. Rei Momo!
*Membro e ex-presidente da Academia Campista de Letras
 

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