Arthur Soffiati - Brahms e o modernismo brasileiro
Que elo poderia existir entre Brahms, compositor alemão do romantismo tardio, com o movimento modernista brasileiro? A música erudita alemã pode ser comparada a um rio caudaloso que se bifurca na segunda metade do século XIX: um braço, turbulento, é representado pela música de Wagner e outro braço, sereno, expressa-se pela música de Brahms. A germanidade de Wagner é traduzida em óperas de fôlego baseadas, em grande parte, numa cultura pré-cristã. A germanidade de Brahms é pensada. Ela canaliza toda a tradição de Bach, Mozart e Beethoven. A obra desses compositores é lida por Brahms com profundidade, aprofundando sua germanidade. Mário de Andrade entendeu a obra do germano-austríaco como um mergulho na Alemanha profunda que iniciou um processo de afastamento da música europeia em relação à tradição alemã, processo esse acentuado por seus sucessores.
Como o modernismo brasileiro buscou o Brasil profundo, poderia haver uma convergência com o projeto de Brahms, compositor nada revolucionário se comparado aos jovens modernistas. Pelo menos, num aspecto eles convergiriam: Brahms, sereno, buscando as bases da cultura alemã para sua música e os modernistas, barulhentos, à procura da cultura brasileira que não era mais a portuguesa fora de Portugal. Como observou Toynbee, Brahms foi o último representante da esplendorosa fase cultural alemã que começou com a divisão da Alemanha em muitos pequenos Estados, em 1648, e terminou com sua unificação militarista em 1870. Segundo o historiador britânico, o esfacelamento da Alemanha representou um desafiou que estimulou a criatividade de filósofos, poetas, ficcionista e compositores.
Nessa toada, podemos dizer que a modernização da cultura europeia, a partir de 1870, a Primeira Guerra Mundial e a cosmopolitização de São Paulo, principalmente, levaram um grupo jovem de intelectuais a atualizar a cultura brasileira para fora e para dentro. Para fora, em busca dos novos movimentos estéticos que pululavam na Europa. Para dentro, em busca dos fundamentos culturais espontâneos brasileiros.
Poderia haver aí um ponto de convergência entre a busca de Brahms pela Alemanha profunda e a busca dos modernistas pelo Brasil espontâneo, que, desde o século XVIII, vinha se afastando da cultura portuguesa. Mas esse ponto de convergência não aconteceu. Em termos de música, o romantismo desabrido e o impressionismo marcaram mais a cultura musical brasileira.
Poucos autores modernistas se dedicaram a pensar e a escrever sobre música erudita. Renato Almeida escreveu “História da música brasileira”, editada em 1926 (Rio de Janeiro: Briguiet & Cia Editores). Entre os modernos, ele cita Béla Bartók, Alfredo Casella, Claude Debussy, Manuel de Falla, Gabriel Fauré, César Frank, Edvard Grieg, Arthur Honneger, Vicent d`Indy, Francesco Malipiero, Darius Milhaud, Francis Poulenc, Maurice Ravel, Rimsky Korsakov, Albert Roussel, Eric Satie, Arnold Schoenberg, Robert Schumann, Igor Stravinsky, Richard Strauss, Giuseppe Verdi e Richard Wagner, para só citar os estrangeiros. Românticos, impressionistas e modernistas europeus quase contemporâneos do autor. Uma palavra sequer sobre Brahms.
Dos poucos que escreveram sobre música, menciono também “Miniatura de história da música”, de Guilherme Figueiredo (Rio de Janeiro: CBE, 1942). Ele integra a terceira geração do modernismo brasileiro. Era amante da música. Não um musicólogo. Schumann, Wagner Verdi, eslavos, franceses e espanhóis modernos figuram em suas páginas. Silêncio sobre Brahms.
De todos, Mário de Andrade foi o único a compreender a contribuição de Brahms para música na sua “Pequena história da música”, da qual me valho de edição de 1942 (São Paulo: Martins). Numa época em que o disco ainda não gozava de edições amplas, Mário se vale de discotecas públicas para ilustrar seu livro. Coleções de música africana, americana, hebraica, chinesa, grega, indiana, japonesa, medieval europeia, música sem autor e representativa de diversas culturas foram consultadas pelo autor e estão mencionadas na edição a que recorro.
Brahms merece quase duas páginas sobre sua discografia. Ele não contava com a edição das obras completas do alemão. Eu conto e posso ouvi-la quantas vezes quiser. Coleção importada obtida a duras penas por mim. Entre as obras ouvidas por Mário, figuram todas as quatro sinfonias, os quatro concertos, as peças orquestrais, quase toda a música de câmara, as canções, a música para piano solo, o réquiem alemão e peças só conhecidas por especialistas. Mário podia dizer que conhecia Brahms. Mesmo que não recorresse aos raros discos, ele sabia ler música e contava com partituras. Qual sua opinião sobre a música do introvertido alemão? Aí já é outra história, a ser contada em outra ocasião. Só adianto que era crítica quanto aos rumos que Brahms deu à música alemã. Contudo, por outro lado, reconhecendo seu trabalho, mas sem vinculá-lo ao modernismo brasileiro.
Arthur Soffiati*
Que elo poderia existir entre Brahms, compositor alemão do romantismo tardio, com o movimento modernista brasileiro? A música erudita alemã pode ser comparada a um rio caudaloso que se bifurca na segunda metade do século XIX: um braço, turbulento, é representado pela música de Wagner e outro braço, sereno, expressa-se pela música de Brahms. A germanidade de Wagner é traduzida em óperas de fôlego baseadas, em grande parte, numa cultura pré-cristã. A germanidade de Brahms é pensada. Ela canaliza toda a tradição de Bach, Mozart e Beethoven. A obra desses compositores é lida por Brahms com profundidade, aprofundando sua germanidade. Mário de Andrade entendeu a obra do germano-austríaco como um mergulho na Alemanha profunda que iniciou um processo de afastamento da música europeia em relação à tradição alemã, processo esse acentuado por seus sucessores.
Como o modernismo brasileiro buscou o Brasil profundo, poderia haver uma convergência com o projeto de Brahms, compositor nada revolucionário se comparado aos jovens modernistas. Pelo menos, num aspecto eles convergiriam: Brahms, sereno, buscando as bases da cultura alemã para sua música e os modernistas, barulhentos, à procura da cultura brasileira que não era mais a portuguesa fora de Portugal. Como observou Toynbee, Brahms foi o último representante da esplendorosa fase cultural alemã que começou com a divisão da Alemanha em muitos pequenos Estados, em 1648, e terminou com sua unificação militarista em 1870. Segundo o historiador britânico, o esfacelamento da Alemanha representou um desafiou que estimulou a criatividade de filósofos, poetas, ficcionista e compositores.
Nessa toada, podemos dizer que a modernização da cultura europeia, a partir de 1870, a Primeira Guerra Mundial e a cosmopolitização de São Paulo, principalmente, levaram um grupo jovem de intelectuais a atualizar a cultura brasileira para fora e para dentro. Para fora, em busca dos novos movimentos estéticos que pululavam na Europa. Para dentro, em busca dos fundamentos culturais espontâneos brasileiros.
Poderia haver aí um ponto de convergência entre a busca de Brahms pela Alemanha profunda e a busca dos modernistas pelo Brasil espontâneo, que, desde o século XVIII, vinha se afastando da cultura portuguesa. Mas esse ponto de convergência não aconteceu. Em termos de música, o romantismo desabrido e o impressionismo marcaram mais a cultura musical brasileira.
Poucos autores modernistas se dedicaram a pensar e a escrever sobre música erudita. Renato Almeida escreveu “História da música brasileira”, editada em 1926 (Rio de Janeiro: Briguiet & Cia Editores). Entre os modernos, ele cita Béla Bartók, Alfredo Casella, Claude Debussy, Manuel de Falla, Gabriel Fauré, César Frank, Edvard Grieg, Arthur Honneger, Vicent d`Indy, Francesco Malipiero, Darius Milhaud, Francis Poulenc, Maurice Ravel, Rimsky Korsakov, Albert Roussel, Eric Satie, Arnold Schoenberg, Robert Schumann, Igor Stravinsky, Richard Strauss, Giuseppe Verdi e Richard Wagner, para só citar os estrangeiros. Românticos, impressionistas e modernistas europeus quase contemporâneos do autor. Uma palavra sequer sobre Brahms.
Dos poucos que escreveram sobre música, menciono também “Miniatura de história da música”, de Guilherme Figueiredo (Rio de Janeiro: CBE, 1942). Ele integra a terceira geração do modernismo brasileiro. Era amante da música. Não um musicólogo. Schumann, Wagner Verdi, eslavos, franceses e espanhóis modernos figuram em suas páginas. Silêncio sobre Brahms.
De todos, Mário de Andrade foi o único a compreender a contribuição de Brahms para música na sua “Pequena história da música”, da qual me valho de edição de 1942 (São Paulo: Martins). Numa época em que o disco ainda não gozava de edições amplas, Mário se vale de discotecas públicas para ilustrar seu livro. Coleções de música africana, americana, hebraica, chinesa, grega, indiana, japonesa, medieval europeia, música sem autor e representativa de diversas culturas foram consultadas pelo autor e estão mencionadas na edição a que recorro.
Brahms merece quase duas páginas sobre sua discografia. Ele não contava com a edição das obras completas do alemão. Eu conto e posso ouvi-la quantas vezes quiser. Coleção importada obtida a duras penas por mim. Entre as obras ouvidas por Mário, figuram todas as quatro sinfonias, os quatro concertos, as peças orquestrais, quase toda a música de câmara, as canções, a música para piano solo, o réquiem alemão e peças só conhecidas por especialistas. Mário podia dizer que conhecia Brahms. Mesmo que não recorresse aos raros discos, ele sabia ler música e contava com partituras. Qual sua opinião sobre a música do introvertido alemão? Aí já é outra história, a ser contada em outra ocasião. Só adianto que era crítica quanto aos rumos que Brahms deu à música alemã. Contudo, por outro lado, reconhecendo seu trabalho, mas sem vinculá-lo ao modernismo brasileiro.
*Professor, historiador, escritor, membro da Academia Campista de Letras e ambientalista