Nélio Artiles: Kit Covid
03/07/2020 02:12 - Atualizado em 24/07/2020 18:35
Infectologista Nélio Artiles alerta para a importância de checar informações compartilhadas nas redes sociais
Infectologista Nélio Artiles alerta para a importância de checar informações compartilhadas nas redes sociais / Rodrigo Silveira
Muito tem se falado em um “novo normal”, quando a flexibilização começa a abrir a vida para as pessoas voltarem às suas atividades profissionais. Estamos há cerca de 100 dias nos adequando a uma nova realidade em que muita coisa mudou, seja nas relações, nas formas de subsistência, na economia mundial e local, na política etc. Aprendemos novas formas de ensinar, de aprender, de consumir, de ajudar quem precisa e uma nova forma de cuidar. Mas o que mais me preocupa nessas mudanças são as formas de tratamento às quais um grande número de pessoas está se submetendo, sem nenhuma comprovação científica.
Em uma chamada estratégia do desespero, vários médicos neste país estão prescrevendo o chamado “kit Covid”. A pessoa começa com uma síndrome gripal ou sinais e sintomas sugestivos da infecção pelo SARS CoV 2, como febre, dor de cabeça e no corpo, diarreia, tosse ou apenas a anosmia (perda do olfato) ou a disgeusia (perda do paladar) e mais que depressa recebe uma receita com dois antibióticos para infecção bacteriana, como a azitromicina e amoxacilina, às vezes dois vermífugos, como Ivermectina e Nitazoxanida, talvez mais duas vitaminas como a C e D. Para piorar, às vezes já com uma cortisona.
Fico assustado com essa prática insensata. Sempre defendi e exerci a medicina com base em evidências e por isto não consigo entender uma ciência tão séria que se refere a cuidar de alguém, ser baseada na emoção e no “achismo”. Um dos princípios da bioética é o Primum non nocere, termo latim conhecido como princípio da não-maleficência, ou primeiro não prejudicar. Mas infelizmente estamos vivendo uma situação estranha, em que um número enorme de pessoas está usando essas medicações mesmo sem nenhuma indicação e que, apesar de todas as mudanças sociais e econômicas envolvidas neste tempo, incluirão modificações microbiológicas também.
Somos constituídos de trilhões de células e cerca de 10 vezes mais de bactérias e outros parasitas, que funcionam como um sistema nos corpos humanos, responsáveis até mesmo por parte de nosso metabolismo, também chamado de microbiota ou microbioma humano. O aparecimento de resistência e de mutações nesses germes será inevitável, sem falar em outros efeitos adversos no uso destas drogas. A Covid é uma infecção viral e terá seu curso variável de pessoa para pessoa, sendo que mais de 80% evoluirão muito bem, com ou sem medicação alguma, e o restante precisará de um médico para acompanhar possíveis complicações, que não há como prevenir, mas perceber a tempo para, aí sim, efetuar um tratamento responsável, como antibióticos, caso desenvolva uma pneumonia bacteriana ou uso de cortisonas ou anticoagulantes de acordo com a fase mais inflamatória que alguns desenvolvem, seja por questões genéticas ou pela presença de comorbidades.
Desde o início são muitas previsões equivocadas. Lives e vídeos feitos por médicos de diversas especialidades, dando opiniões e sugestões sem base científica, funcionando como fake news. Há necessidade de mais racionalidade nesta hora. Termino com Bertrand Russel, matemático e filósofo: “As pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas e as idiotas cheias de certeza”.

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