Escolinha de futebol inspirada no Flamengo e no Real Madrid perde atletas devido à crise na Venezuela
Matheus Berriel 14/03/2019 18:13 - Atualizado em 18/03/2019 18:25
Real Flamengo de Venezuela foi fundada em 2017
Real Flamengo de Venezuela foi fundada em 2017 / Divulgação
O que o Flamengo e o Real Madrid têm em comum além de serem grandes clubes mundialmente conhecidos? A simpatia do comerciante venezuelano Arlindo da Silva, de 40 anos, que apostou no futebol para tentar mudar a realidade de crianças e adolescentes em Caracas, capital de seu país. Fundada em 6 de março de 2017, a escolinha Real Flamengo de Venezuela conta com várias categorias de base, mas vem perdendo atletas durante a crise política e socioeconômica da nação oficialmente governada por Nicolás Maduro e extraoficialmente por Juan Guaidó, autoproclamado presidente com apoio de diversos países, inclusive o Brasil.
Filho do brasileiro Armando Pinto, de 68 anos, residente na Venezuela, Arlindo herdou do pai a paixão pelo Flamengo. “Temos família no Brasil e já estivemos aí. Sou torcedor do Flamengo desde criança, e também da Seleção Brasileira. Para o Real Madrid, torço à distância”, disse o comerciante, que não teve a oportunidade de ver o ídolo do pai, Zico, defendendo o clube de coração, mas pôde curtir alguns lances do craque vestindo a camisa amarelinha numa Copa do Mundo: “Não vi o Zico jogar pelo Flamengo, mas vi pelo Brasil, no México, em 1986”.
Arlindo trabalha com o futebol há seis anos, pouco mais de dois dirigindo o Real Flamengo de Venezuela. Atualmente, a escolinha tem cerca de 200 atletas, divididos nas categorias sub-07, sub-09, sub-11, sub-13, sub-15, sub-17 e sub-19 masculinas; sub-15, sub-17 e sub-19 femininas. Os matriculados pagam uma quantia simbólica em bolívares venezuelanos, valor equivalente a menos de R$ 1.
Arlindo trabalha com futebol há seis anos
Arlindo trabalha com futebol há seis anos / Divulgação
— Cobramos uma mensalidade de acordo com a situação econômica da Venezuela. São 500 bolívares, o que não vale nem uma chupeta. Mas eu quero que eles sejam ótimos. Tiro do meu outro trabalho (o dinheiro para pagar) todas as despesas da academia, ainda não há empresas que nos ajudem. Eu gostaria que o Flamengo nos ajudasse com uniformes, porque aqui na Venezuela eles são muito caros. Os primeiros uniformes nós fizemos, mas gostaríamos de ter outros para jogar mais torneios — disse Arlindo.
Uma das camisas feitas é preta e tem apenas uma lista vermelha, levando no lado esquerdo o símbolo da escolinha, muito parecido com o do Flamengo. Há também um modelo com as mangas brancas, mesma cor do uniforme do Real Madrid, e outro completamente branco, com o escudo ao centro.
Além de Arlindo, a comissão técnica tem outros quatro treinadores — dois homens e duas mulheres — que atuam de forma colaborativa, sem cobrar salário. “Ninguém cobra. Só os ajudo com suas passagens para irem para casa ou lhes pago os cursos que fazem para se aperfeiçoarem”, pontuou o presidente da escolinha.
O Real Flamengo de Venezuela disputa um torneio regional de base. Na primeira temporada, as equipes sub-15 masculina e feminina chegaram às semifinais. A feminina repetiu o feito em 2018. O trabalho desenvolvido com os meninos e meninas é reconhecido pelos pais e responsáveis. Em dezembro do ano passado, Arlindo recebeu uma placa agradecendo “pela dedicação, o tempo e esforço em promover a educação, conhecimentos e ensino, compartilhando sua sabedoria e incentivando nossos filhos a serem pessoas melhores todos os dias, tanto dentro do campo como fora dele”.
Porém, tal reconhecimento não garante, por si só, a continuação do trabalho. Por conta da crise venezuelana, famílias de vários atletas precisaram se mudar para a Colômbia.
— O futebol é importante para os meninos e meninas crescerem como desportistas e terem disciplina dentro e fora do campo. Sempre tira as crianças da vizinhança para que não tenham uma vida ruim. Muitos dos que estavam na academia partiram por causa da situação, os outros estão em luta por uma mudança, e ainda estamos aqui em nosso país. As atividades estão suspensas devido à situação por aqui — lamentou Arlindo.
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